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06 / 12 / 2012 - 2:34 pm

Alta-costura de madeira

Marcelo Lima – O Estado de S.Paulo

Para usar uma imagem bem ao gosto do personagem em questão, não seria exagero afirmar que o processo criativo do designer Carlos Motta navega ao sabor da maré. Ornamentais ou utilitárias, clássicas ou contemporâneas, fato é que a maioria de suas cadeiras e poltronas de madeira foi desenhada não para atender à sua urgência criativa. Mas para responder, da forma mais delicada possível, às mais ilustres solicitações.

“A cadeira Estrela, de 1979, foi desenhada para uma exposição no Museu de Arte Moderna de Salvador e a poltrona Luna, para mobiliar o Palácio da Alvorada, em Brasília, a pedido do escritório de Oscar Niemeyer. A cadeira Layla desenhei para minha mulher amamentar minha filha, em 1988. Já o modelo sem braço, foi feito para atender a um pedido da cantora Maria Bethânia”, conta o designer.

Habituado a manter uma convivência bastante próxima com suas criações – “a cadeira Iporanga foi desenvolvida em homenagem à minha praia favorita. Na língua Tupi, ‘I’ significa rio e ‘poranga’, bonito” –, Motta confessa que ainda não se acostumou por completo à ideia de ver sua linha Atelier, desenhada entre 1997 e 2007, produzida, a partir deste mês pela empresária Etel Carmona.

“Etel e eu nunca fomos concorrentes. Pelo contrário, sempre atuamos na mesma linha, tentando buscar soluções coerentes entre nosso trabalho e o planeta. Contudo, assumo que fiquei bastante enciumado ao saber que minhas cadeiras serão produzidas em outro lugar. Mas também bastante feliz por ver que minhas peças vão continuar sendo feitas com o mesmo carinho, com o mesmo respeito e, mais do que tudo, com a mesma responsabilidade ambiental e social”, pondera o designer.

Da parte de Etel, a mesma sensação de afinidade e a certeza de que a chegada de Motta é só o prenúncio de que algo muito maior está por vir. “Não houve grandes negociações. Sempre senti que havia uma sinergia forte entre a gente e, quando conseguimos nos encontrar, a conclusão foi a mesma: tínhamos de trabalhar juntos”, explica Etel. Uma autodidata que só tomou contato com o design no início dos anos 80, quando restaurou os móveis do sítio de sua família, no interior de São Paulo, e é hoje uma das mais conceituadas editora de mobiliário de madeira do País.

“Por trás da pintura gasta e daquela grossa camada de verniz que encontrei naquelas peças, descobri madeiras singulares e elaborados esquemas de montagem. Naquele momento percebi que, à parte ser muito difundido, não havia nada de banal no móvel de madeira. Muito pelo contrário. Foi quando passei a respeitá-lo e decidi conhecê-lo em profundidade”, conta.

Fruto dessa surpresa, a loja Etel Carmona abre suas portas em 1988, tendo como objetivo primordial tratar a madeira brasileira como um bem precioso a ser preservado e o móvel construído na matéria-prima, como um objeto de alto valor agregado. “Trabalhamos com técnicas clássicas de marcenaria e, sempre que possível, fazemos questão de deixar isto bastante à mostra, colocando em evidência toda a beleza de nossos encaixes”, diz a empresária.

Sem exceções, todos os móveis Etel são produzidos artesanalmente, o que acabou por se constituir no maior diferencial da marca. “Me arriscaria a dizer que fazemos alta costura em mobiliário. Tudo aqui é feito à mão. Além disso, costumo dizer que nosso design te DNA”, explica ela, salientando que todas as peças são numeradas e vêm com um selo de qualidade que sinaliza seu processo produtivo: da data de fabricação ao nome do artesão que delas se encarregou.

Além das criações da própria Etel, a marca tem em seu catálogo peças desenhadas por renomados designers e arquitetos, como Claudia Moreira Salles e Isay Weinfeld, e reedita clássicos do mobiliário brasileiro assinados por mestres como Jorge Zalszupin e Gregori Warchavchik. Outra das exclusividades, conta com uma inédita coleção criada por artistas plásticos, entre eles, José Bento, Roberto Mícoli e Marcelo Cipis.

“Nossos móveis têm uma construção rigorosa, mas não acho que seja apenas por isso que gozam de tão boa reputação. Eles despertam um sentimento de memória, de brasilidade. Acho que é isso que os torna tão bem aceitos”, pondera Etel, a respeito das cultuadas peças da marca, muitas das quais com presença garantida em lojas estreladas de Nova York, Los Angeles e Londres – prováveis paradas, por certo, das recém-chegadas criações de Motta.

Fonte: blogs.estadao.com.br

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